Neste guia
O que é um roteiro (de verdade)
Um roteiro não é uma novela com marcações técnicas. É um documento funcional que serve a um único propósito: comunicar uma experiência cinematográfica para uma equipe que vai transformá-la em imagem e som.
O roteiro não existe para ser lido. Existe para ser filmado. Cada palavra precisa ser visual, presente e filmável.
Se você não consegue filmar, não escreva. O roteiro não é o lugar da sua prosa — é o projeto da sua imagem.
A estrutura de três atos
Desde Aristóteles, narrativas bem construídas seguem uma lógica de três movimentos:
Ato I
Apresentação
Páginas 1–25
Mundo do personagem, status quo, incidente incitante. Até a virada que empurra o protagonista para o conflito central.
Ato II
Confronto
Páginas 25–85
A jornada pelo conflito. Obstáculos crescentes, ponto médio, crise e o ponto mais baixo antes do clímax.
Ato III
Resolução
Páginas 85–110
O clímax, a transformação do personagem e o novo equilíbrio. Tudo que foi plantado precisa ser colhido aqui.
Entenda a estrutura para poder subvertê-la. Filmes como "Rashomon", "Memento" ou "Cidade de Deus" quebram a linearidade — mas seus roteiristas conheciam as regras de cor antes de quebrá-las.
Os pontos de virada
Incidente Incitante (pág. 10-15)
O evento que quebra o equilíbrio do mundo do protagonista e lança a questão dramática central.
Virada do 1º Ato (pág. 25-30)
O protagonista cruza um ponto sem retorno e entra de cabeça no conflito.
Ponto Médio (pág. 55-60)
Uma aparente vitória ou derrota que redefine as apostas. A história muda de tom aqui.
Crise / Tudo Parece Perdido (pág. 75-85)
O protagonista toca o fundo. É daqui que vem a transformação real — não do sucesso, mas da derrota.
Clímax (pág. 90-105)
O confronto final. A questão dramática é respondida. O personagem age a partir de quem ele se tornou.
Desenvolvimento de personagens
Personagem não é descrição física. É escolha sob pressão. Quem um personagem é se revela no que ele faz quando tem algo a perder.
Desejo vs. Necessidade
O protagonista sabe o que quer (desejo consciente). Mas o que ele precisa de verdade é diferente — muitas vezes oposto. A jornada é a história de como ele descobre a diferença.
Flaw (fraqueza fundamental)
Todo personagem memorável tem uma falha essencial que é ao mesmo tempo sua força e sua destruição. Sem flaw, não há arco dramático.
Ghost (trauma de origem)
O passado que o personagem carrega e que explica (mas não justifica) seu comportamento no presente.
Escrever diálogo que soa real
Diálogo ruim tem um sintoma claro: os personagens dizem exatamente o que pensam. Pessoas reais falam em subtexto. O melhor diálogo é aquele em que o que não é dito pesa mais do que o que é dito.
O melhor diálogo é aquele em que o que não é dito pesa mais do que o que é dito.
Formatação profissional
O processo de escrever
1. O Tratamento
Antes de escrever uma cena, escreva o tratamento: 10 a 20 páginas descrevendo a história inteira sem diálogo. É o mapa antes da estrada.
2. A Primeira Versão (vomit draft)
Escreva rápido e feio. O objetivo não é qualidade — é existência. Um roteiro ruim pode ser reescrito. Uma página em branco não pode.
3. As Reescritas
William Goldman disse que roteiro é reescrita. A maioria dos scripts produzidos em Hollywood passa por 7 a 12 versões antes da filmagem.
Use a calculadora de tempo de leitura para estimar a duração de cenas com diálogo. A referência é 1 página = 1 minuto.